Ainda existem modas ou são apenas tendências?!

Em uma entrevista para a revista Elle de 1972, Pierre Cardin declarou: “Alta costura ou prêt-à-porter? Para mim, essas palavras não querem dizer mais nada. Criação espero.” Dentro de uma proporção mais ampla, dá para entendê-lo. Desde o início dos anos 1980, de fato, a distinção entre alta costura e prêt-à-porter ficou ainda mais reduzida, até se fundir com o que se convencionou chamar de criação, “que se origina dos dois sem ser nenhum nem outro”, que dá à primeira “os meios para sua renovação” e ao segundo “a totalidade de sua inspiração”, e que oferece uma elegância e um esmero no acabamento apenas proporcionados pela alta-costura no passado, atingindo se não as massas, um público bem amplo, e isso apesar de as apresentações das coleções de alta-cotura e prêt-à-porter ainda serem feitas separadamente. Por outro lado, essa criação ocorre em um terreno livre das diferenciações que haviam dividido: as diferenciações entre as classes sociais, ou as que existem entre os sexos. Mesmo a diferenciação etária que as havia substituído foi eliminada pouco a pouco: roupas que nos anos 1960 e 1970 era próprias para os jovens, como o jeans, foram rapidamente assimiladas pelos mais velhos.

Compreendendo, dentro desse novo contexto, que não se trata mais de uma moda única, pela qual a alta-costura, mesmo tendo iniciado ela própria uma diversificação estética, não é mais responsável, mas de uma pluralidade de modas que obedecem a um conjunto de processos complicados: a própria sensibilidade dos criadores, sem dúvida, mas também as aspirações diversas vindas da rua, que acabaram constituindo modas que deliminam o pretencimento a determinado grupo ou tribo. O resultado, em todo caso, é o da “multiplicação e fragmentação dos cânones do parecer, da justaposição dos estilos mais heteróclitos”. Se, em uma mesma estação, podem coexistir o moderno e o clássico, o mais extremado requinte e o pauperismo absoluto, as épocas, as mais diversas culturas, mas também as cores e os motivos mais disparatados, é no interior mesmo de suas coleções que um criador está pronto para sacrificar de todas as formas - tanto em um sentido mais amplo quanto em um mais restrito - daí em diante possíveis: o vestido, a saia, a calça, o longo, o curto, o largo, o justo. As revistas de moda são, aliás, as provas privilegiadas disso. Quando uma revista como a Vogue, pelo menos em sua versão francesa, desde o início dos anos 1990 renuncia, em sua capa, a coleções com sua provável quinta-essência e prefere enunciar todas as opções (mini, longo, masculino, couro, quadrado, largo, colorido, etc.), mostra bem a ausência de um modelo feminino dominante.

Sem dúvida, considera-se que essa multiplicação e essa fragmentação da moda são significativas na revelação de uma civilização do look, em que “cada um é no presente considerado responsável pela imagem que faz de si mesmo, inclusive quando escolhe ficar limitado a uma expressão chamada ‘utilitária’ ou ‘que fica bem em qualquer lugar ou ocasião’”. Mas, mais do que uma real revoluação, essa nova direção da moda restaura apenas o individualismo ocidental que assistiu ao seu nascimento. Ela simplesmente, a partir daí, vai até o fim de sua lógica, que é de singularização e de afirmação de si própria. Aliás, se as modas atuais são apropriadas para definir um look, elas podem também, por falta de um modelo dominante, manifestar certo número de tendências, não imediatamente perceptíveis, porém latentes. E a partir daí desenvolvem-se rapidamente nas profissões de moda, ou ligadas à moda, escritórios de tendências que se encarregam precisamente de delimitá-las, identificá-las e prevê-las.

Monneyron, Frédéric. A moda e seus desafios: 50 questões fundamentais.

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